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Por causa do trânsito de Vênus, Lili teve que dar a volta nos anéis de Saturno.
Retorno online previsto em 13 segundos-luz.
porque viver é uma viagem.
Quando eu tinha quatro anos de idade, um milheiro de tijolos caiu sobre mim.
Desço do avião, alguém à espera para me levar ao hotel. Checkin. Tomo um banho rápido, me arrumo para ir lhe procurar, deixo a mala largada, desço correndo, taxi. Rua Coelho da Rocha número 16, por favor. Ansiedade. Passo os olhos pelas ruas tentando me distrair. Troco palavras soltas com o motorista. Silêncio. A distância percorrida em dez minutos parece tão grande. Chego enfim. A rua estreita repleta de carros, não há onde parar, desço do taxi no meio da rua. Paro em frente à porta estreita, alta e verde, semi-aberta. Há uma placa indicativa à esquerda, um vaso de planta à direita. Empurro a porta, com receio, com a cerimônia de quem vai à casa de um ilustre desconhecido e não sabe como se comportar. Atrás de mim a porta se fecha com certo ruído, acho que para saberem que está chegando alguém. Hesito em dar o primeiro passo. 
Não lembro. No quarto pintado de branco (era esta a cor quando você dormia aqui?) a janela, sem cortinas, pintada de branco, semi-serrada deixa passar uma fresta de luz do dia que corre lá fora. Ti encontro enfim. E respiro. Olho a janela branca e ti imagino ali, de pé, a olhar para a rua... tiro uma foto da janela na vã esperança de que ela também revele você. Ao sair do quarto sua lembrança me acompanha. Desço as escadas mais leve. Atravesso a recepção em direção aos fundos da casa. O que seria um jardim ou espelho d'água carece cuidados. Há uma escada em caracol que leva ao terraço, penso em seguir por ali, desisto. No muro frases pintadas, frases tuas, frases que falam de ti. Vou em direção à escada do anexo, caiado de branco também, o azulejo me diz "vai pelo seu pé, pelo seu pé digere", mas um enorme gafanhoto me impede de passar. Vou me preparando para ir embora lentamente, como quem adia o momento do adeus.
Semana passada uma amiga quebrou o pé e terá que passar seis semanas numa cadeira de rodas. É temporário, ela voltará a andar perfeitamente assim que seu osso cicatrizar. Porém, junto com a limitação da mobilidade individual, ainda que temporária, despencou sobre ela todo um mundo que não foi feito para quem não é doente do pé o tempo todo.
No hospital me colocaram uma etiqueta, dessas de braço, parecida com as que se coloca em bebês quando nascem...![]() |
| Rembrandt, A Volta do Filho Pródigo, 1669 |
“Somne, quies rerum, placidissime, Somne, deorum,
pax animi, quem cura fugit, qui corpora duris
fessa ministeriis mulces reparasque labori.” Ovidi, Metamorphoses, Book XI (1 A.D.)
“Divine Hypnos, god who knows no pain,
Hypnos, stranger to anguish,
come in favor to us, come happy,
and giving happiness, great King!
Keep before his eyes such light as is spread before them now.
Come to him, I pray you, come with power to heal!" Sophocles, Philoctetes (409 B.C.)