terça-feira, 26 de junho de 2012

Retorno de Saturno

Saturn's (re)turn

Por causa do trânsito de Vênus, Lili teve que dar a volta nos anéis de Saturno. 
Retorno online previsto em 13 segundos-luz.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Paisagem Matutina

Numa manhã de quarta-feira avisto um homem vindo em minha direção, na mão esquerda traz uma caixa de papelão.
Ele para no meio do caminho e coloca a caixa no chão. De lá retira um pombo e o solta.
O pombo voa meio desorientado para trás e o homem grita, na esperança de que ele mude de direção, mas pombos não entendem os apelos humanos e bate contra a vidraça de um o prédio e cai; tenta alçar voo novamente, mas a vidraça continua lá invisível a seus olhos de ave, e volta a cair.
O homem exclama “é louco”, vai até o pombo e o pega, sem resistências.
Deve estar machucado, eu penso. Permaneço inerte, tentando imaginar soluções para livrar pássaros de vidraças, enquanto o homem atravessa a praça carregando o pombo atordoado.
Então, o homem o coloca num galho de uma árvore, se afasta um pouco, e espera.
Enquanto espera, o homem olha em minha direção e me pega ali parada, observando de longe; eu sorrio, envergonhada, e sigo meu caminho.
Não sei quanto tempo o homem permaneceu ali a esperar.
Não sei se o pombo conseguiu manter-se na árvore e se conseguiu voltar a voar.
Nem sei qual vidraça me mantém à distância.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

REM

Era preciso voltar a dormir
Dormir profundamente
E completar todos os ciclos
E recomeçar

Era preciso voltar a sonhar
Sonhar livremente
E repousar todas as noites
E despertar

Deixando as noites mal dormidas para trás
Esqueço os dias mal vividos
Aos ipês, cores, aromas e petúnias dos meus sonhos
Abro os braços e mergulho em paz

terça-feira, 15 de maio de 2012

Preciso, para

Vou ali ver outro hemisfério.  Para desacostumar os olhos.  Para desadormecer os sentidos.
E que o sol aqueça esta vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Aperte o play

Há alguns dias esse vídeo me encheu de encanto, e já perdi a conta de quantas vezes apertei o play desde então.
Os videoclipes da banda OK GO são sempre bem elaborados e utilizam a repetição e o movimento como forma de expressão.
A letra da música fala sobre estarmos tão ávidos à procura daquilo que queremos, que pode acontecer de  não sermos  capazes de discernir a busca do objeto.
Às vezes nossos olhos estão tão acostumados, que deixamos de perceber a beleza das coisas à nossa volta, a beleza dos gestos, a beleza do movimento, a beleza das cores...
Que tenhamos olhos de ver!







sexta-feira, 4 de maio de 2012

Locus Delicti Commissi

Hoje eu precisava sair.
E seria preciso passar por um lugar há muito evitado.
E eu teria que ir só.
Hesitar e existir se confundiram na minha conjugação.
E eu poderia esperar até amanhã, ou até depois de amanhã.
Mas o lugar continuaria lá a me aprisionar.
Então saímos, meus joelhos doídos, meu pés inseguros e eu.
No caminho, o cinza do dia e o vento frio, por companhia.
Alguns lugares, assim como fantasmas, não deixam de existir por não acreditarmos mais neles.
Passei o lugar, sem olhar para trás.
À minha frente só portos seguros.

terça-feira, 1 de maio de 2012

DNA

Meio índio, meio negro
Meio marinheiro, meio pedreiro
Todo pai
Conversava muito
Dos sonhos não sei
Foi meu professor
Mas eu gostava mesmo era de passear com ele de mãos dadas
Partiu cedo
As poucas fotografias se perderam
Ficará para sempre gravado em meu DNA

terça-feira, 24 de abril de 2012

Encaixotando Pessoas

Quem é esse outro que está diante de mim?
Cujas palavras me soam estranhas ao ouvido
Não era o mesmo que ainda há pouco me fazia sorrir?

Quem é esse outro que chamo de amigo?
Cujas palavras me caem mal ao ouvido
Não era o mesmo que ainda há pouco queria comigo seguir?

Quem é essa outra que vejo no espelho e não reconheço?
Cujas palavras me saem pela boca
Não era a mesma que ainda há pouco queria ser eu?

Mulher em frente ao Espelho, Picasso, 1932

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Marinheiro

 
Sozinho em seu barco ele segue
De porto em porto
Cruzando oceanos e distâncias

Tanto cais
Tantos ais

De solidões atlânticas
De noites pacíficas

Seus dias navega por entre sereias e arpões, marlins e tubarões
Amigo de albatrozes e gaivotas
Sabe de maremotos e calmarias
 
Às vezes vai à terra, por dever e para se certificar que lá não é o seu lugar
Não cria vínculos, rompe laços, e mantém-se a uma distância segura, porque poucos sabem nadar

De dias meridionais
De noites árticas
Sabe das rotas e faróis

E devolve ao mar todas as garrafas de náufrago que lhe chegam às mãos, que ao acaso encontra
Prático de seu próprio caminho vai desviando das âncoras




quinta-feira, 5 de abril de 2012

Aos pedaços

Encaro a tela inacabada todos os dias.
Como espelho, ela parece me encarar de volta e refletir minhas incompletudes.
Já perdi a conta da tinta desperdiçada, das tentativas de consertar a pincelada mal dada, das vezes que pensei em desistir...
Encaro a minha vida todos os dias.
Como num espelho, vejo refletidas minhas incompletudes, meus anseios e receios, as vezes que parei no meio do caminho que escolhi seguir, a palavra mal dada, as vezes que pensei em desistir...
Acho que um dia vou atravessar o espelho, e ele se partirá em todos os meus pedaços. 


segunda-feira, 26 de março de 2012

Da Leveza do Ser


É preciso ser leve
E forte como o vento
E tocar a todos, ternamente

É preciso soltar as amarras
E ser livre como a brisa
E perfumar os ares, suavemente

É preciso ir
E deixar o peso dos dias para trás
E seguir na direção do coração, incansavelmente

segunda-feira, 12 de março de 2012

BSB CITY

-onde a solidão já acabou com ela-

Ir ao cinema sozinho é uma arte
Poucos se atrevem
Para ela, rotina quase sagrada
Sempre o mesmo cinema, sempre a mesma poltrona G9
A água, a pipoca, o cachecol para o ar condicionado
Ele chega, também só, e senta na poltrona G10
O cabelo louro, longo e liso, preso num rabo de cavalo
Ele ajeita a mochila de algodão cru sobre as pernas cruzadas
Deve ser um notebook – ela pensa
Percebe o nariz aquilino dele
Durante todo o filme ele parece roer as unhas, ela resiste à vontade de olhar para ter certeza
Ela constrói teorias a respeito do roer unhas, divaga, e volta a prestar atenção ao filme
Quando as luzes se acendem ela ainda resiste em olhar para o lado
Ela faz um movimento de levantar-se, mas hesita ao ver a fila para sair
Ele olhou para ela ou apenas na sua direção?
Enfim, ela se levanta e vai rumo à saída
Não, ela não olha para trás.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cura fugit

Os olhos ansiosos de minha mãe me fitam  a perguntar, mas seu silêncio fala mais.
Sorrio. Precisamos arrumar as malas, eu digo.
Ela me pede para pentear-lhe os cabelos, como em todos os dias dos últimos anos; faço um coque, pergunto-lhe se está bem assim, ela responde que sim e agradece com o velho e bom sorriso que preenche minhas manhãs.
Fazemos planos, traçamos roteiros,  de mãos dadas, nos olhando e sonhando com essa viagem.
O rosto de minha mãe agora é sereno e me dá paz. E eu sou feliz.
Minha mãe e eu vamos para a Itália! Grito, silenciosamente, para a mim mesma, para ter certeza, para não explodir de tão contente...
Arrumamos as malas.
Já são quase duas da tarde, preciso correr, ir comprar as passagens...
No balcão da companhia aérea, tudo certo, passagens marcadas, porém ao tentar efetivar o pagamento, a máquina do cartão de crédito insiste em não registrar a senha...
Um barulho ensurdecedor acontece de repente, olho em volta, me pergunto de onde vem, enquanto tento finalizar a compra das passagens de minha viagem com minha mãe à Itália...o barulho infernal me atordoa...
Abro os olhos, mas é tarde, eu já acordei.


 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Força Fraca

Consequência da estrutura geométrica do espaço-tempo
Há peso
Maior a altura, maior a vertigem
Atraídos pelo chão
Sem ter onde segurar
Folhas soltas dos galhos
Tocamos a terra e sacudimos a poeira
Volta e meia vamos já
Humano corpo desarticulado
Aquí me quedo e resto qua 
Livre voo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

SOB

Quando eu tinha quatro anos de idade, um milheiro de tijolos caiu sobre mim.
Sim, eu já fui soterrada e sobrevivi.
Aconteceu numa tarde comum de um dia qualquer.
Num dos quartos do barraco havia mil tijolos aguardando alguma construção. Meu irmão e eu brincávamos de carrinho dando voltas ao redor da pilha de tijolos de cor clara, maciços, pesados.
A próxima coisa que me lembro é dos rostos em pânico de toda minha família me retirando de sob os tijolos. Todos falavam ao mesmo tempo. Todos falavam sobre os tijolos. Todos falavam comigo. Meu pai tentava acalmar a todos, tentava se  acalmar, tentava me acalmar e me tirar dalí, enquanto eu gritava "Meu pé! Meu pé".
Não houve machucados, nenhum osso se quebrou. Não sei se era só o que havia na casa, mas lembro de passarem álcool nos meu pés; talvez para me acalmar, talvez para se acalmarem, talvez porque era preciso fazer algo.
Então, meu pai me pegou no colo para me levar para o hospital.
Lembro somente da ida. Fomos à pé, fazia sol, mas não fazia calor, o céu estava azul. Enquanto caminhávamos, meu pai conversava comigo; sua voz e seu colo me mantinham serena e fazia com que eu quase nem me lembrasse mais do que acabara de acontecer. 
Naquele momento o mundo parecia um lugar seguro e tranquilo.
Hoje, numa tarde comum de um dia como qualquer outro, um carro atropelou o meu pé.
Sim, eu já fui atropelada e sobrevivi.
Num posto de gasolina, enquanto finalizava meu atendimento, um carro de cor escura veio devagar, sem que eu percebesse a tempo e  parou com a roda dianteira sobre o meu pé.
O motorista como que em transe, talvez pelo som altíssimo que escutava, olhava pra mim como se não me visse, enquanto eu batia descontroladamente no capô do carro e gritava "Meu pé! Meu pé!". A frentista e outro cliente também começaram a gritar, porém o motorista continuava inerte. Então um senhor correu até a janela do motorista e conseguiu fazer com que ele desse marcha à ré no carro.
Eu tentei minimizar a dor me certificando de que meu pé estava inteiro, enquanto bradava minha raiva e medo contra o motorista, que se limitou a me olhar, a olhar minha roupa suja da poeira do carro dele, a olhar para para o pé que eu  protegia com a mão. E se foi, sem nada dizer, sem nada fazer, sem pressa, a ouvir o som altíssimo de seu carro.
Tal indiferença só aumentou minha raiva; devia ter batido mais e com mais força naquele carro, pensei; tremia tanto que quase não consigo achar papel e caneta para anotar a placa. A frentista tentava me acalmar enquanto me ajudava a limpar a roupa e o senhor que conseguiu tirar o carro de cima do meu pé tentava me consolar dizendo para colocar gelo.
A caminho de casa um céu de chumbo, trovões e relâmpagos no horizonte anunciavam chuva forte se aproximando.
No seguro do lar, passada a raiva, passado o susto, passada a dor, eu sei que está tudo bem.
Choro, porque saudade também atropela a gente, e tudo o que eu queria agora era o colo de meu pai.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Res, non verba

Que a palavra pouco diz
E o olhar procura onde repousar
Não haverá haicai suficiente para dizer da solidão e distância dos dias que não virão.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Casa de Fernando

Desço do avião, alguém à espera para me levar ao hotel. Checkin. Tomo um banho rápido, me arrumo para ir lhe procurar, deixo a mala largada, desço correndo, taxi. Rua Coelho da Rocha número 16, por favor. Ansiedade. Passo os olhos pelas ruas tentando me distrair. Troco palavras soltas com o motorista. Silêncio. A distância percorrida em dez minutos parece tão grande. Chego enfim. A rua estreita repleta de carros, não há onde parar, desço do taxi no meio da rua. Paro em frente à porta estreita, alta e verde, semi-aberta. Há uma placa indicativa à esquerda, um vaso de planta à direita. Empurro a porta, com receio, com a cerimônia de quem vai à casa de um ilustre desconhecido e não sabe como se comportar. Atrás de mim a  porta se fecha com certo ruído, acho que para saberem que está chegando alguém. Hesito em dar o primeiro passo.
No corredor à minha frente, no chão, em concreto o teu mapa astral. Finalmente caminho. À minha esquerda a recepção, à direita a biblioteca, à frente a escada que leva ao andar superior. Sinto-me uma criança, só e desamparada, à procura de alguém que lhe dê uma direção. Não é preciso identificar-se. Na recepção há um livro de visitas. Tento disfarçar o nervosismo olhando os títulos dos livros à venda, assino o livro de visitas. Você não está aqui. Vou em direção às escadas. As divisórias de vidro não se parecem contigo. Subo os degraus da escada, do alto da passarela moderna vê-se no mosaico do chão o mapa astral; não é permitido tirar fotos, um cartaz na parede avisa. Mais divisórias de vidro. Há uma placa indicando seu quarto? Não lembro. Entro no quarto à sua procura. Há uma escrivaninha e sobre ela, numa redoma de vidro, a tua máquina de escrever. Há estantes com teus livros, que devoro com olhos ávidos os títulos os quais já esqueci, as capas verdes, pretas... a fragilidade que só livros antigos sabem ter. 
Há cama? Armários? Criado? Não lembro. No quarto pintado de branco (era esta a cor quando você dormia aqui?) a janela, sem cortinas,  pintada de branco, semi-serrada deixa passar uma fresta de luz do dia que corre lá fora. Ti encontro enfim. E respiro. Olho a janela branca e ti imagino ali, de pé, a olhar para a rua... tiro uma foto da janela na vã esperança de que ela também revele você.  Ao sair do quarto sua lembrança me acompanha. Desço as escadas mais leve. Atravesso a recepção em direção aos fundos da casa. O que seria um jardim ou espelho d'água carece cuidados. Há uma escada em caracol que leva ao terraço, penso em seguir por ali, desisto. No muro frases pintadas, frases tuas, frases que falam de ti. Vou em direção à escada do anexo, caiado de branco também, o azulejo me diz "vai pelo seu pé, pelo seu pé digere", mas um enorme gafanhoto me impede de passar. Vou me preparando para ir embora lentamente, como quem adia o momento do adeus.
Cheguei para conhecer a casa do ilustre senhor e parto como quem deixa a casa do ex-amante, querendo ficar mas sabendo que é preciso ir, porque o fim sempre chega. Atravesso a porta estreita, alta e verde, que se fecha atrás de mim com certo ruído, acho que para saberem que saí. Olho para trás, ninguém à porta, subo os olhos até a janela do teu quarto, mas você não está mais lá. Tiro mais uma foto na esperança vã de que ela também me revele você. Deixo a rua estreita repleta de carros e deserta de gente para trás. Levo você. Isso me basta.
Lisboa, 11 de maio de 2007

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Note to self

Todo início de ano eu penso em comprar uma agenda, como se fazia antigamente...
E anotar as coisas por fazer, os aniversários, as contas a pagar, os números de telefone que eu não mais consigo decorar...
Para não ficar refém da minha memória falha, da bateria que acaba, da energia elétrica que falta...
Os dias passam e quando eu vejo, o ano aproxima-se do fim  e eu já confundi algumas datas, paguei contas vencidas, o serviço de informações não tinha o número que eu precisava e eu perdi o papel onde anotei o endereço de onde eu deveria ir...
Acho que os dias são post-it notes que perderam a cola.


PS: Agenda comprada

domingo, 1 de janeiro de 2012

Manuscrito


É preciso escrever
Não que se tenha algo a dizer
Não que seja importante
Não que alguém vá querer saber
É preciso escrever
Para que algo seja dito
Para que a mão não enferruje
Para que a letra encontre a palavra
É preciso escrever
Ainda que tudo já tenha sido dito
Ainda que ninguém leia
Ainda que a mão doa
Depois a gente pensa

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sempre não é todo dia

Hoje, rompeu-se o último laço que nos unia.
Hoje, acordei e não vi mais teus sinais pela casa
O sábado amanheceu no silêncio da sua ausência.
Você se vai, apagando teus rastros atrás de si, para não ser seguido, para não ser encontrado... mas eu acho que é para poder voltar quando bem quiser, fazendo de conta que não havia ido.
Já faz algum tempo que você realmente se foi, apesar de não ter sido a primeira vez, eu sempre acho que será a última, mas você sempre volta. 
Dessa vez acho que será para sempre.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os cegos do castelo


E no dia de Santa Luzia, o sol aparece pouco, e a chuva vem pesada.
No distante pop do século passado nos diziam que quando falta luz o invisível salta aos olhos.
Hoje, nosso dia-a-dia está cada vez mais cheio do invisível, mas há também muita bateria para nos impedir de perceber o escuro do mundo.
Quando eu era criança, o ‘acabar a luz’ interrompia toda e qualquer atividade, e pacientemente esperávamos que alguém, geralmente a mãe (porque luz e mãe são quase sinônimos) providenciasse uma alternativa à escuridão, o que sempre levava alguns minutos, pois procurar velas no escuro não é tarefa fácil, nem mesmo quando se lembrava onde elas estavam guardadas.
Quando faltava luz, o primeiro impulso era chegar à janela para ver até onde ia o apagão, alguns iam à rua compartilhar frases tolas sobre a queda da energia elétrica com vizinhos e passantes.
Se a falta era um pouco mais longa, a família toda reunida na sala, conversava sobre banalidades para passar o tempo; se fosse à hora do jantar, o ato se tornava mais solene, porque todos os jantares à luz de velas têm um quê de solene.
Se a demora do retorno da luz se prolongava, íamos mais cedo para a cama.
Mas sempre havia gritaria e comemorações quando a eletricidade voltava a funcionar.
Voltar a estar na luz era sempre uma festa.
Ontem olhando pela janela do oitavo andar vi uma mulher de bengala em punho a tatear o caminho, seguindo pela faixa amarela sinalizadora na calçada.
E a faixa sinalizadora, pela qual passo todos os dias quando cruzo o estacionamento rumo ao edifício onde trabalho, me saltou aos olhos.
A mulher quase cega de passos quase inseguros seguindo pela faixa sinalizadora amarela com o auxílio de uma bengala, me saltou aos olhos.
E me saltou aos olhos, também, o homem com uniforme do Correios que descia a escada naquele instante.
O homem parou por um segundo; eu prendí a respiração por um segundo; ambos quero crer, para ter certeza de que a mulher não iria se chocar com a parede logo à frente, que se aproximava, perigosamente, a cada passo quase inseguro que ela dava.
Mais rápido do que eu voltei a respirar, o homem dirigiu uma palavra à mulher, e, ou por ela ter dispensado ajuda ou por já ter desviado da parede virando à esquerda, ele seguiu em direção ao carro que o esperava, e eu continei a seguir com o olhar, lá do alto do oitavo andar, a mulher quase cega e sua bengala em seus quase inseguros passos até que ela desaparecesse do meu campo de visão.
Ver é algo tão magnífico... lamentavelmente vemos automaticamente, e qual aqueles que pouco enxergam, vamos seguindo pelas faixas sinalizadores que nos dizem qual a direção tomar.
Mas, e se não houver faixa, ainda que em somente em parte do caminho, quem irá nos avisar sobre as paredes à frente? 
E se não houver por perto um homem com uniforme do Correios para reparar e oferecer ajuda? 
E se a pessoa mais próxima estiver lá no oitavo andar?
Lá do alto, na segurança da minha torre de observação, a força daquela mulher quase cega me saltou aos olhos, e eu me senti tão frágil, e a solidão de ter que sair de casa e enfrentar um mundo que não foi feito para os que enxergam pouco, me pareceu grande demais para apenas o apoio de uma bengala.
Semana passada uma amiga quebrou o pé e terá que passar seis semanas numa cadeira de rodas. É temporário, ela voltará a andar perfeitamente assim que seu osso cicatrizar. Porém, junto com a limitação da mobilidade individual, ainda que  temporária, despencou sobre ela todo um mundo que não foi feito para quem não é doente do pé o tempo todo.
Ver é um aprendizado, aos poucos vai-se decodificando os signos do mundo, mas é um processo interno, às vezes muito lento, não há manual, nem escolas...  e há muito o que aprender ainda...
O olho humano é um órgão complexo, formado por músculos, lentes, fibras, vasos sanguíneos, células fotosensoras, membranas, nervos... mas para ver é preciso apenas luz.
É preciso abrir os olhos. 
É preciso ter olhos de ver. 
E que haja sol.


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Grinch venceu (ou como arruinar um natal)

Fim de expediente. Sexta-feira, sinal verde para o fim de semana, e eu contente em ir para casa. Enfim o elevador chega. Noutro andar entram três moças.
Moça 1: - "Ela só estava explicando porque a religião dela não comemora o nascimento, eles só comemoram a morte..."
Moça 2: - "Mas eu não entendi... Não comemoram por quê? Só morre quem nasce... Deus escolheu Maria para conceber, ainda pura... Jesus nasceu em 25 de dezembro..."
Moça 3: - "Onde está escrito? Jesus não nasceu no dia 25..."
Moça 2: - "Não sei... deve estar escrito em algum lugar... na bíblia..."
A porta do elevador se abre e eu saio rapidamente, quase contente por não escutar o resto da discussão, as moças ainda iriam descer mais um andar...

O calendário me diz que falta um mês para o Natal.
Até agora nenhum jingle bells, nenhum hohoho, nem Lennon, nem Simone, não há luzes na cidade... chove e faz frio.
No comércio local é possível encontrar praticamente tudo, exceto sentido.
Minha fé não é sinônimo de religião.
Acho que eu não devia ter comido carne de rena lá na Suécia. 
Eu não comemoro morte. 
Talvez após 7 bilhões, nascer já não seja tão sagrado assim.
No fundo da minha memória a voz de meu pai ainda ecoa papai noel não existe...” 
Em Brasília 18h.


Pergunta Errada
Se eu acredito em Deus? 
Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? 
O que importa é saber se Deus acredita em mim.
Mário Quintana

domingo, 20 de novembro de 2011

Dune Mosse


Sabe, tento me manter à tona, nem sempre é simples, qualquer movimento mais brusco, qualquer distração, perco o equilíbrio e volto a descer.
Nem sempre é assim. Na maior parte do tempo nem me lembro onde estou, às vezes é até confortável aqui. Só nos dias muito quentes ou muito frios é muito ruim, porque não há alívio, só há constância. No frio é pior, pois nada aquece.
Outro dia senti uma coceira no pé, achei que ia enlouquecer, com a agitação comecei a descer, aí acho que o medo de descer mais ainda levou a coceira embora. 
Me assusto quando começa a ficar escuro demais, mas se você fechar os olhos e respirar fundo passa.
Desde que cheguei aqui aprendi a ver as coisas de uma forma diferente. Deve ser o ângulo, daqui se vê com mais perspectiva, de mais perto.
Daqui vejo as pessoas e suas alturas, todas querendo ir mais alto sempre, esquecendo que têm os pés junto ao chão... os passos sempre largos e apressados, sempre deixando atrás de si rastros e sempre jogando seus lixos quando acham que ninguém está olhando, depois reclamam de tropeçar neles.
De vez em quando um ou outro para pra conversar; geralmente se demoram mais quando precisam desabafar e eu os ouço; sabe, é bom ter alguém para nos ouvir. Uns são engraçados, vivem ironicamente, só que nem sempre consigo entender suas piadas, aí eles se zangam e vão embora. A maioria acena de longe, perguntam como vai a vida e se despedem alegando pressa. Sempre há pressa. Outros param só para reclamar do tempo, muito quente, muito frio, muito seco, chove demais. Poucos, não muitos, passam e dão bom dia, por obrigação, eu acho. Dizer bom dia devia ser uma arte não uma obrigação, eu divago. Tem também os que passam por aqui e fazem de conta que não vêem. Também há muitos que, lá da margem,  dão tchauzinho, jogam beijinho e acenam positivo com a mão.
Gosto de ver as pessoas que passam por aqui, gosto delas. Só me irritam às vezes, quando fazem sempre as mesmas perguntas, quando se distraem enquanto eu respondo, quando fazem perguntas cujas respostas não querem saber, sempre preocupadas com o umbigo.
Pessoas com umbigos são as mais difíceis, pois às vezes elas se esquecem que são pessoas e se tornam apenas umbigos. Grande mal esse umbigo. Acho que vamos morrer todos de umbigo, é epidemia já e ninguém reparou. Só percebi isso quando cheguei aqui, parece que daqui se vê melhor o tamanho dos umbigos. Meu umbigo também cresce.
Mas não é tão ruim assim, sabe...
Só daqui é possível ver primeiro quando a planta nasce, pode-se até ouvir o barulho da terra quando se abre pra ela passar, mas eu só ouço de longe, não dá pra chegar lá na margem.
No verão me divirto vendo as gotas de chuva que estalam quando tocam o chão; se chove fraquinho à noite, me ajuda adormecer; se é tempestade passo tempo tentando adivinhar onde vai nascer o próximo raio.
No outono é confortável aqui, é mais tranquilo.
No inverno só os ipês que caducam me impedem de morrer de frio.
Na primavera só não gosto dos insetos. É tanto inseto, voando em todas as direções, cigarras estridentes, grilos irritantemente inquietos, libélulas, aleluias... algumas espécies têm aparecido menos nos últimos anos, esperanças quase nada e há anos não vejo um louva-deus.
Está começando a chover. Espero que não chova muito forte. Se chove forte e por muito tempo a densidade da areia diminui e eu começo a descer mais...
Não, não conheço o fundo.
Alguns dias acho que estou quase lá, mas aí volto à tona...
Lá no fundo, deve ser bom, já que não há mais aonde ir.

sábado, 12 de novembro de 2011

Dodói

No hospital me colocaram uma etiqueta, dessas de braço, parecida com as que se coloca em bebês quando nascem...
É possível nascer de novo cada vez que se vai a um hospital? Talvez. Algumas pessoas sim. Eu não. Eu morro sempre que preciso ir a um hospital.
- Morro de medo de quem eu fui ver não saia de lá.
- Morro de medo de não sair de lá.
- Morro de medo de cedo ou tarde ter que voltar.
Não vejo vida lá.
Pessoas que trabalham em hospitais são estranhas, distribuem a todos a mesma indiferença.
Não vejo sorrisos lá.
Tenho medo de sorrir em hospitais. Deve ser proibido.
Olho a etiqueta.
Se minha mãe estivesse comigo receberia a etiqueta também?!
Vejo o maço de etiquetas no guichê de atendimento à minha frente... são verdes... me distraio imaginando se cada especialidade médica teria sua cor... seria vermelha a etiqueta da cardiologia? As dessa emergência são todas verdes...
Todos ganham sua etiqueta verde após assinar a guia de atendimento. Deve ser brinde.
Entre a recepção e os consultórios há agora uma divisória, à porta um segurança... para barrar nosso acesso ao médico ou para impedir que fujamos quando a hora da dor chegar?!
Os médicos estão cada vez menos acessíveis, cada dia mais distantes...enclausurados nas suas celas-consultório.
Não há beleza nos consultórios dos hospitais. Nem conforto. O necessário para manter-se vivo? Talvez.
50 minutos de espera, 5 minutos de atendimento.
Saio quase correndo do hospital, quase contente por ter sido rápido.
Ninguém reclamou a etiqueta. Tento tirá-la, não consigo. De que é feito as etiquetas de hospital? Plástico, papel, fibra?! A cola é forte, não se desfaz a puxões.
Em casa não há ninguém para cortá-la e liberar o meu pulso.
Arranco-a à faca, em dois golpes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O filho pródigo

Rembrandt, A Volta do Filho Pródigo, 1669
 

Sou aquele que fica.
O que está sempre a postos.
Aquele que recebe o que lhe é dado.

Sou aquele que ama e espera ser amado.
O que semeia esperando colher.
Aquele que sempre tem fome.

Depois de tudo gasto, o riso amarelo, a festa dos outros.
Até eu, às vezes, me perco de mim.
Pródigo é o amor idealizado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem*


Eu não vivo onde moro.
Poucos são os que realmente vivem onde moram.
Poucos realmente conhecem a cidade onde residem.
As cidades crescem enquanto dormimos.
Enquanto eu crescia, o centro da cidade onde moro ficava às moscas nos fins de semana, não só porque a população era menor, mas os que podiam iam procurar diversão noutros cantos, porque aqui não havia nada pra se fazer...
Quando parei de crescer ainda acreditava nessa lenda. 
A cidade mudou, não sei bem quando.
Acho que a primeira coisa que muda numa cidade é o trânsito. Há sempre alguém indo a algum lugar. 
E as vias largas daqui, antes desertos, já não são tão ermas assim, mesmo nos dias de folga.
Só percebi o tamanho da mudança, no dia em que ao chegar via aeroporto, vindo de um final de semana vivido em outro lugar, enfrentei 25 minutos de fila para o táxi. Não que não houvesse em número suficiente, nem que seja barato por aqui, ao contrário. Era apenas mais uma manhã de segunda-feira na cidade.
A segunda coisa que muda é a cultura, sejam as opções de lazer ou a forma como as pessoas vivem na cidade onde moram.
Já não é preciso fugir em busca de algo para se fazer, pois há opões para todos os gostos, tantas que nem cabem na agenda, é preciso optar: cinema, festa, teatro, show, festival, exposição, palestra, feira... e se a grana é curta ou não esteja a fim de ficar em casa ou não haja interesse no que é oferecido de graça, pode-se ir caminhar no parque ou passar tardes olhando vitrines em centros comerciais, repletos de lojas que não foram feitas para um bolso qualquer... temos até uma Tiffany & Co... acho que irei lá qualquer dia desses para descobrir quantas casas decimais fazem  uma etiqueta...
Agora sei das lojas de grife, dos lugares mais movimentados nas noites de balada, do horário de pico do tráfego, todas as opções de cardápio para comer e beber...
Ainda assim não vivo a cidade em que moro. Não a conheço.
Passo por ela todos os dias, e à medida que ela cresce, aumenta a nossa distância.
E qual turista clicando freneticamente a câmera fotográfica, registro o dia-a-dia, a família, os amigos, a cidade...
Eu tinha um plano, mas qual pleiade, o brilho difuso da cidade me distrai, e piloto segue em automático.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O lixo nosso de cada dia

E de repente somos todos politicamente corretos.
Ampliamos o nosso vocabulário para caber as novas regras sociais, a reforma ortográfica, as reformas políticas, as bulas.
Acompanhamos novas tecnologias como se nós, humanos, também tivéssemos igualmente evoluído.
Fazemos campanhas mundiais, pelo bom e pelo belo.
Queremos salvar o planeta. Economizamos água, luz, reciclamos o lixo material que produzimos, levantamos bandeiras para salvar a natureza, para salvar os animais, há paz em nossas camisetas...
E no caminho perdemos a gentileza, a generosidade, a ternura...
Olhamos para o todo e nos esquecemos das partes, olhamos para o mundo e nos esquecemos do nosso quintal.
E nos esquecemos de quem está ao lado, aqui bem próximo, e por isso mesmo, o primeiro a ser afetado por nossos atos e palavras. E se pisarmos no pé de alguém, é só pedir desculpas porque é assim que deve ser.
Automaticamente caminhamos.
Todos são simpáticos, porque é preciso ser amado.
Estampamos no rosto o nosso melhor sorriso, moldado com o que há de mais moderno em aparelhos estéticos e clareamento dental, porque a beleza do dia põe mesa, cama e banho e ainda paga as contas do mês.
Vivemos mais, porém às vezes duvido que estejamos vivendo melhor.
Não aceitamos o outro como ele é. É preciso se adaptar. É preciso trabalhar isso em terapia. É preciso.
Empatia palavra que não serve. Sapatos confortáveis só os nossos.
O problema não é o lixo que o outro descarrega sobre nós,  e sim, que nós, por não conseguirmos separar o outro do seu lixo, o aceitamos, e somos por ele soterrados.
Quem nos salvará do outro?

domingo, 9 de outubro de 2011

Fotolalia

A retina diafragma
Eu obturo
Tem uma foto
Tem uma foto no meu olho
Olho, não vejo
Sopro a lente, nada
Forço uma lágrima, nada
Meu olho míope e prespíope já não enxerga com pouca luz
Tem uma foto no meu olho
Preciso sair para tirá-la.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vazante

Lágrima quando cai é enchente
É um rio que vazou na gente
(Depois passa como água sob a ponte)
Deixa o barro da lembrança que acompanha a gente por dentro e por fora
Quando o sol volta, seca que nem argila
E a gente cimenta e leva ao forno pra que a gente não quebre.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Torna a Surriento

O sol se põe lentamente no horizonte de oceano e é como se o tempo tivesse parado para olhar.
Lá embaixo o mar também silenciou suas ondas, as pessoas falam em tons suaves e sorridentes, e a vida parece não ter pressa nessa cidade de frente pro mar.
A praça junto ao penhasco agora parece um grande terraço, onde pessoas não param de chegar em busca da melhor vista do golfo de Napoli, onde um Vesúvio descansa alheio a tudo e a todos.
Tons e sobretons de amarelo, laranja e ocre se sobrepõem na cidade que parece debruçar-se nos penhascos e ir de encontro a um imenso e verde-azul mar.
O sol se vai e no lusco-fusco a noite de lua cheia surge para acalmar o calor e o passo dos turistas e suas câmeras.
Não é a mais bonita cidade italiana, nem a mais interessante, não possui monumentos colossais, e a maioria das pessoas apenas passa sem demorar o olhar.
Ali, o primeiro banho no Mar Mediterrâneo (rápido por causa de suas águas geladas)... o Maitre Peppe, alegre e simpático bancando cupido... aniversário comemorado com generosa fatia de tiramisú com direito a velinha e parabéns para você, servido por um super Mário de olhos verdes e cara de galã de filme italiano... o Piano Man alegrando o happy hour com velhas canções italianas, que a pedido meu, cantou tu vuò fa l’americano... a recepcionista com trauma de dirigir pela Costiera... o napoletano que dirigia o trenino enquanto contava quanto teria sido mais barato me hospedar em Pompéia... o rapaz que se apresentava como William por ter nome italiano impronunciável e cuja irmã teve que se casar porque engravidara... a simpática velhinha, imigrante talvez, que morava em Hercolano e ficou horas me fazendo companhia num banco de praça... o melhor pão italiano que já tive o prazer de saborear... a missa em italiano na igreja de S. Francesco... as ruas estreitas e floridas... Limoncello...
Um dia, andando sem rumo, atravessei seus 9km e acho que fui parar na cidade vizinha...
Gostava de sentar na piazza e ver a vida passar e ficar no porto esperando o sol se por ao som das ondas agitadas pelo vento...
Não descobri como chegar às ruínas do moinho, nem que árvore era aquela ao pé da mura antica que me parecia tão antiga quanto...
Sorrento me fisgou não me lembro quando, só sei que foi antes de conhecê-la, foi de ouvir falar, de ter visto em filmes antigos já esquecidos, de ouvir quando criança aquele nome estranho naquela música de língua esquisita, e antes mesmo de ter me apaixonado por um sorrentino que lá não vive...
Por duas vezes parti chorando e querendo ficar.

Conosci tu il paese dove fioriscono i limoni?
Nel verde fogliame splendono arance d'oro
Un vento lieve spira dal cielo azzurro
Tranquillo è il mirto, sereno l'alloro
Lo conosci tu bene?
Laggiù, laggiù
Vorrei con te, o mio amato, andare!

J.W. Goethe

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ó Hypnos

Ninguém tem insônia nas noites de sexta-feira...
Não se precisa dormir nas noites dos sábados de baladas...
Porém nas noites de domingo...
Nas vésperas dos dias em que será preciso acordar cedo...
Nas horas que antecedem algo importante...
Quando se quer parar de pensar...
Quando é preciso salvar-se da rotina, da distância, da falta de sentido...
Quando você precisar estar inteiro...
Quando há cansaço...
Não há Morfeu que te abrace enquanto Nix segue alheia a teus anseios.
De noites mal dormidas nascem os dias mal vividos.

“Somne, quies rerum, placidissime, Somne, deorum,
pax animi, quem cura fugit, qui corpora duris
fessa ministeriis mulces reparasque labori
.” Ovidi, Metamorphoses, Book XI (1 A.D.)
“Divine Hypnos, god who knows no pain,
Hypnos, stranger to anguish,
come in favor to us, come happy,
and giving happiness, great King!
Keep before his eyes such light as is spread before them now.
Come to him, I pray you, come with power to heal!"
Sophocles, Philoctetes (409 B.C.)
 

sábado, 20 de agosto de 2011

A Verbis ad Verbera

Hoje, nada é mais distante que o instante 
Ontem, a saudade era presente
Amanhã, quiçá será o bastante

Por dias inteiros
Por noites perfeitas
O sol por testemunha
E a lua por companheira

Voltar, partir, ficar, ir
Tempus verbis
Tempus fugitis
Todas as estações

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Fênix

Porque já não sou a mesma que partiu, só ao terceiro dia consigo desfazer a mala.
E a casa que me recebe também não é a mesma. Vazia, branca e silenciosa, pede cuidado.
Todas as coisas por fazer: reconhecer-me no que ficou, deixar ir embora o que não me cabe mais, acrescentar o novo que me cativou...
No dia da chegada, a mala fica num canto da sala, perto da entrada.
No segundo dia, apenas passo por ela, espio-a de longe, e sua cor vermelha a me lembrar a chegada.
E no terceiro dia, sento-me diante dela, e ao abri-la vou retirando os dias idos, a roupa suja, os recibos que nunca serão controlados, souvenirs, tudo o que não foi usado, tudo o que provavelmente não vou usar...
E ressuscita em mim anseios de viajar.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cotidiano

Diante da lista de coisas por fazer, paraliso.
Como bicho preguiça
Como lagarto ao sol
Como ondas na vazante
Difícil manter a alma no mesmo lugar que o corpo quando o coração voa.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Regra de três

Não tenho mais olhos para textos longos nem ouvidos para conversas compridas...
A mente voa depois do terceiro minuto.
Não escrevo mais à mão...
Dói-me as juntas e a letra vira garrancho depois da terceira linha.
Não penso mais em você...
O pranto secou e a vida seguiu depois do terceiro adeus..
Não corro mais, nem de medo, nem de pressa...
Meus pés cansaram depois da terceira queda.
Os sonhos ficaram na terceira noite de insônia...
As ilusões se perderam na terceira curva do caminho...
A vida em reticências:
Eu, o tempo, o ponto final.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Imperfeito


Aqui diz que o planeta  se movimenta a uma velocidade de 107266KM/h em translação e 1666KM/H em rotação.

Freud diz que eu faço uma força enorme para ficar parada e tal esforço me contrai.

Eu digo que apenas tento me equilibrar nesse mundo que vai, às pressas, sabe-se lá para onde.

A Terra gira e todos correm, como se fizesse sentido, e ninguém mais vê o que está à volta.Tudo e todos passam correndo, como os dias - que são poucos, como as horas - que são escassas, para tanta agenda.

Qual leitoras óticas passamos os olhos pelos códigos à nossa frente, mas não os processamos, porque é informação demais, porque estamos cheios demais para absorver o que o outro diz, o que o outro quer, o que o outro sente.
E num piscar de olhos juntamos todos os links que nos chamam a atenção e num click passamos à frente, sem sequer saber de onde vêm, o que são, para que servem. Dessa leitura dinâmica o que resta é somente a rasa dedução de tudo o que foi visto, lido e ouvido, porém não compreendido.

E o que fica são suposições, superposições do que somos com o que achamos que o outro é, nossas conclusões apressadas e nossos equívocos.

Paramos de ouvir depois do terceiro minuto, paramos de ler depois da terceira linha, e estamos sempre cansados demais para tentar uma outra vez.
Nosso tempo é imperfeito.


Paciência

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não)
Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para(a vida não para não...a vida não para)
Lenine